quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Essa não é uma despedida

 Ao som de Ótima parece que a clareza se confunde com a escuridão e qualquer espaço que pareça vago dentro de mim se preenche com uma vã esperança de que o abismo não é tão fundo assim.

Essa não é uma despedida mas é uma forma de entender, meu bem, que cada coisa mora em um lugar diferente, em prateleiras diferentes dentro de cada um.

Minhas prateleiras são empoeiradas mas organizadas, as vezes tiro algo, as vezes ponho, sempre organizo mas esse abismo me deixa sem saber aonde encaixar. É um livro com história já escrita e concluída ou apenas um conto breve publicado em um blog esquecido e abandonado dos anos 2000 com Internetês? Quiçá algo ainda, um spin off, uma segunda edição ou até mesmo a continuação com comentários do escritor acerca do que escreveu e se arrependeu?

O arrependimento é um veneno em gotas lentas que apenas a bebida e o tempo dissolvem. Angústia é como descrevo. E já não há mais espaço pra isso dentro ou exposto nas prateleiras da minha cristaleira colonial.

Há tanta coisa bela, meu bem...

Essa não é uma despedida.

Mas reconsiderar com anacronismo a escrita de cada parte contada, criada ou imaginada pelo leitor e escritor é um caminho sem volta.

Liberto mas essa não é uma despedida.

É apenas um desabafo com escárnio que faço de mim mesma numa situação. 


Relicário bem guardado conserva o tempo que muitos acham que foi perdido mas o tempo é o senhor de tudo e nas mãos dele tudo vai passar. Memória se guarda e se deleta.

Não é a primeira vez e talvez não seja a ultima mas na prateleira da minha vida eu ponho o que quero e essa já não é mais uma escolha que eu faço, um livro que gosto de ler. É um conto fechado.


Agora sim, essa é a despedida. Agora sim um ponto final.